terça-feira, 31 de março de 2020

História desvenda maravilhosa e misteriosa predileção de Deus para com o Japão

26 mártires de Nagasaki. Em convento franciscano da Senhora das Neves em Praga
26 mártires de Nagasaki. Em convento franciscano
da Senhora das Neves em Praga
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Um minucioso e demorado trabalho de arqueólogos e especialistas da História permitiu reconstituir uma das páginas mais belas do Cristianismo.

Trata-se da perseverança dos católicos japoneses durante mais de dois séculos a uma das mais desapiedadas perseguições religiosas que registra a humanidade.

E seu maravilhoso e emocionante fim com a intervenção de potencias ocidentais e a chegada de missionários da Europa.

Em post anteriores, tivemos ocasião de nos ocupar dos achados das ciências arqueológicas e históricas.

Cfr.: Descobertas capelas dos católicos japoneses perseguidos durante séculos

Arqueólogos revelam perseverança heroica dos católicos japoneses perseguidos durante séculos


O espantoso número de vítimas mortais, feridos físicos e mentais deixados pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki na II Guerra Mundial é muito aquém daquele das vítimas das perseguições pagãs aos católicos no Japão.

E essa gesta foi evocada especialmente quando foram lembrados recentemente os bombardeios de Hiroshima, e especialmente Nagasaki, que eram as duas cidades de maior população católica do país.

Acrescentamos este post aos anteriores, cujos links estão acima, para completar uma visão de conjunto.

Chegada de nau portuguesa a Nagasaki, introduzindo o cristianismo
Chegada de nau portuguesa a Nagasaki, introduzindo o cristianismo
Os missionários jesuítas levaram o catolicismo a Nagasaki em 1560 conduzidos por naus portuguesas. São Francisco Xavier SJ o primeiro missionário havia aportado em Kagoshimma em 1549.

Sua pregação obteve grande sucesso mas seu objetivo era chegar à China. Segundo a BBC News Mundo, os missionários jesuítas que vieram seguindo o santo obtiveram grande êxito na conversão dos senhores feudais da região de Nagasaki.

Em consequência, muitos camponeses súditos dos senhores feudais também se converteram à Igreja Católica, fazendo com que pelo início do século XVII Nagasaki se tornasse a “Roma do Japão”.

Kiri Pramore, professor de estudos asiáticos da Universidade Nacional da Irlanda, disse à BBC que “nenhum outro lugar do Japão foi tão cristão quanto Nagasaki”.

No século XVII, na cidade e área adjacente chegou a haver 500 mil católicos.

Mas as autoridades políticas de então, muito penetradas de espírito nacionalista, acharam que o rápido crescimento da religião estrangeira dos Papas constituía uma ameaça para o governo central, e tomaram medidas enérgicas para acabar com ela.

Os primeiros editos anticristãos datam de 1565, mas é de 1614 a proibição estrita que deu origem a sucessivas ondas de perseguição, tortura e martírios. Essa época funesta durou mais de dois séculos.

Em 1853 o governo nipônico adotou certa tolerância, mas a ordem proibitória só foi oficialmente abolida em 1873.

Altar secreto japonês: por fora parece um móvel doméstico comum, mas aberto serve para a Santa Missa
Altar secreto japonês: por fora parece um móvel doméstico comum,
mas aberto serve para a Santa Missa
Só no período inicial missionário calcula-se que os martírios confirmados atingiram a casa dos mil. Faltam dados para definir o número exato de mártires no período da perseguição 1814-1853/1873.

Na Nagasaki do século XVII era comum ver, em locais públicos, filas de pessoas aguardando a chamada.

Quando convocadas, elas deviam se aproximar das autoridades locais e da capital que haviam sido enviadas especialmente para o ato que descrevemos a seguir.

Essas autoridades exigiam que elas pisassem, na presença de todos, numa imagem de bronze representando Jesus crucificado.

Se o fizesse, o cristão apostatava e salvava sua vida. Se se recusasse, podia ser executado, crucificado, torturado, imerso em água fervendo ou suspendido com a cabeça para baixo num buraco repleto de excrementos.

Qualquer sinal de dúvida poderia custar-lhe a vida.

Na segunda metade do século XVI foram crucificados em Nagasaki 26 missionários estrangeiros. Eles foram canonizados pelo grande Papa e Beato Pio IX no dia 8 de junho de 1862. E a lista dos martírios se fez longa, com numerosas beatificações.

Pisando o fumi-e
Pisando o fumi-e
A perseguição imergiu o Japão no isolamento e cortou seu contato com quase todos os países.

Por volta de 1620, os carrascos pagãos se voltaram contra os simples católicos. E para isso inventaram os fumi-e, que eram imagens de Cristo ou de Maria feitas de latão sobre madeira.

Cada residente de Nagasaki deveria ficar em pé acima do fumi-e (fumi= “pisando em” + e= “imagem”) em cada início do ano.

“Era uma obrigação. Nem as pessoas comuns, nem os samurais, nem os monges budistas, nem mesmo os doentes podiam ignorá-lo (no caso dos últimos, os algozes levavam a tábua até a sua casa). Todos tiveram que fazer isso”, explicou Martin Ramos, professor de estudos japoneses na Escola Francesa do Extremo Oriente (EFEO), com sede em Paris.

“Foi muito bem pensado porque, naquela época, os cristãos eram muito dependentes de imagens. As pessoas oravam diante de uma imagem de Maria ou de Jesus. Era um elo com o divino. Portanto, pisar (na imagem) era algo que eles temiam”.

Muitos apostataram pisando no fumi-e.

Fumi-e desgastados pelas pisadas.
Fumi-e desgastados pelas pisadas.
“Nos fumi-e originais vê-se que o rosto de Cristo está completamente desgastado, o que nos recorda a quantidade de pés que o calcaram”, conta Simon Hull, professor da Universidade Católica de Nagasaki Junshin e especialista em catolicismo japonês.

Os católicos que se recusavam eram mortos ou, mais comumente, torturados.

“Às vezes eram pendurados de cabeça para baixo em uma cova cheia de excrementos. Eles faziam cortes em suas têmporas para liberar a pressão do sangue e não morrerem”, acrescenta Paramore.

“Podia ser que um médico estivesse presente para impedir que morressem e assim poderem continuar atormentando-os”, diz Hull.

Por essa via, perto de dois mil católicos receberam o martírio. Outros ainda fingiam que não professavam mais o catolicismo, porém o praticavam em segredo.

“Eles voltavam para casa implorando a Deus que os perdoasse”, diz Hull. “Numa comunidade, eles queimaram até as sandálias que usavam, misturaram as cinzas com água e depois as beberam como sinal de profunda penitência”.

Os católicos ocultos ficaram conhecidos como kakure kirishitan.

“Eles realizavam batismos e outras práticas cristãs em segredo e davam nomes portugueses aos filhos, como Paulo, Mario e Isabella. E comemoravam o Natal e a Páscoa”, explicou Ramos.

Eles também tinham elementos japoneses que confundiam os perseguidores e evitam que os descobrissem.

26 Mártires de Nagasaki,
Johann-Heinrich Schönfeld, Castel Nuovo, Itália
Como não tinham missa porque não havia sacerdotes, eles partilhavam o arroz como se fosse o pão eucarístico, explica Mark Mullins, professor de estudos japoneses na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.

Da mesma forma, eles adaptavam o ídolo da deusa Kannon colocando a Cruz nela, pela frente ou pelas costas, e eles viravam a estatueta na ora de fazer as orações.

É fato considerado milagroso pelo Beato Papa Pio IX que nesse período de 250 anos os católicos perseguidos tenham conservado a fé, mesmo sem nenhum apoio sacerdotal.

Em 1858, a prática de pisar no fumie foi proibida em Nagasaki.

Em 1865, uma mulher se aproximou do Pe. Bernard Thaddée Petitjean, do Instituto das Missões Estrangeiras de Paris, recentemente instalado perto de Nagasaki.

Ela queria ver com seus próprios olhos a imagem de Nossa Senhora que o sacerdote possuía e tirar a limpo se ele obedecia ao Papa de Roma.

Essas haviam sido as instruções deixadas pelos últimos missionários antes de morrerem ou desaparecerem. As mesmas deveriam ser obedecidas quando futuramente aparecessem outros padres, pois assim os fiéis poderiam reconhecer os autênticos e não serem enganados por protestantes ou outros.

Os fiéis guardaram a instrução no coração durante 250 anos! E quando viram que o aviso transmitido oralmente em família tinha se concretizado, foram em massa receber os sacramentos na igreja católica recém-construída.

“Quando os missionários estrangeiros voltaram a pisar o Japão após serem reabertas suas fronteiras, cerca de 20 mil cristãos reapareceram e deixaram seu esconderijo”, diz Mullins.

A belíssima história encerrou uma era atroz de vários séculos, feita de torturas, perseguições e artifícios para esconder a fé.

Hoje, apenas cerca de 1% da população do Japão (126 milhões) é cristã e o maior número está em Nagasaki.

Nossa Senhora conserva uma predileção especial pelo Império do Sol Nascente, como é conhecido o Japão.

Akita: a imagem que chorou lágrimas e sangue mais de cem vezes
Akita: a imagem que chorou lágrimas e sangue mais de cem vezes

Nossa Senhora conserva uma predileção especial pelo Império do Sol Nascente, como é conhecido o Japão.

Com efeito, em 1973 Ela se manifestou à Irmã Agnes Katsuko Sasagawa, no convento das Servas da Santíssima Eucaristia, na localidade de Yuzawadai, perto de Akita, na região mais atingida pelo terremoto e tsunami que causou estragos históricos no país.

Desde aquela data, a imagem de Nossa Senhora chorou lágrimas mais de uma centena de vezes e verteu sangue em outras ocasiões.

Inclusive na presença do ordinário diocesano Dom João Shojiro Ito, Bispo de Niihata.

O fenômeno foi declarado de procedência sobrenatural pelo mesmo bispo, máxima autoridade na matéria. O Vaticano confirmou a decisão.

Convento onde aconteceram as aparições em Akita.
Convento onde aconteceram as aparições em Akita.
A mensagem de Nossa Senhora foi uma nova insistência nas advertências feitas pela Mãe de Deus em Fátima:

“Se os homens não se arrependerem e não melhorarem, o Pai infligirá um terrível castigo à humanidade. Será uma punição maior do que o dilúvio, nunca vista antes.

“Fogo cairá do céu e destruirá grande parte da humanidade, tanto os bons quanto os maus, não poupando nem sequer os sacerdotes ou fiéis.

“Os sobreviventes se acharão de tal maneira desolados que terão inveja dos mortos.

“As únicas armas que restarão serão o Rosário e o Sinal deixado pelo meu Filho. Recite todos os dias as orações do Rosário. Com o Rosário, reze pelo Papa, pelos bispos e padres.

“A obra do demônio se infiltrará até mesmo dentro da Igreja, de tal modo que veremos Cardeais se opondo a Cardeais, bispos contra bispos. (...)

“A Igreja estará cheia daqueles que aceitam compromissos e o demônio afligirá muitos padres e almas consagradas para que deixem o serviço do Senhor.

“Aqueles que colocam sua confiança em Mim serão salvos”.


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