Santa Catarina de Siena. Giovanni di Paolo (1399 - 1482). Brooklyn Museum |
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs |
“Santa Catarina de Siena (ou Sena) (1347-1380), Virgem, Amou apaixonadamente a Santa Igreja, Pregou a reforma da Igreja e a Cruzada”.
Uma santa que prega a Cruzada é contrária à piedade molemente sentimental.
Entre outros dados biográficos de Santa Catarina de Siena lemos:
“A Gregório XI a Santa fala com severidade daqueles que são caridosos e compassivos por amor carnal, da mesma maneira que são cheios de complacência para com o próprio corpo”.
“Caridoso e compassivo por amor carnal”, é típico do pai, marido, mulher, filho que tem um apego para além do razoável com os membros de sua família.
Por isso é levado a não ver os defeitos dos seus parentes e a pactuar até com os defeitos deles, imaginando-os melhores do que são por um amor que vem da carne, do sangue, do lado físico, que não tem nada de sobrenatural.
Ela fala contra isso que fala. Se aplicava muito, naquele tempo, aos Papas, bispos que tinham nepotismo e favoreciam parentes.
“Semelhantes seres, vendo seus subordinados caírem em pecado, fingem não o perceber a fim de não se sentirem em obrigação de castigá-los.
Santa Catarina de Siena, desposório místico com Cristo, Giovanni di Paolo di Grazia
“Ou então, se os castigam, é com tanta brandura que mais parecem passar unguento sobre o vício, pois temem sempre desagradar alguém a provocar mais descontentamentos.”
Um Prelado que agisse dessa maneira também entraria na mesma censura:
“Oh, meus filhinhos, quem sabe se não é inteiramente conveniente que as moças usem a saia cinco centímetros acima do joelho. Não vos irriteis.Essa frase mereceria ser escrita ao pé de uma imagem de Santa Catarina de Siena e posta numa capela com letras de ouro: “querer viver em paz é, muitas vezes, a maior das crueldades”.
“Eu não quero dizer que tem mal nisso, não. Eu digo, quem sabe, talvez etc.” Ou então não dizer palavra nenhuma...
“Querer viver em paz é, muitas vezes, a maior das crueldades”.
Ora, o próprio da tolerância para os defeitos dos familiares é querer viver em paz. Mas é uma crueldade que deveria receber admoestações salutares.
“Quando o abscesso está formado, é preciso que ele seja inciso pelo ferro e queimado pelo fogo e se deixarmos de fazer isso para apenas tratá-lo com bálsamos, alastra em extensão e a morte, muitas vezes, é precipitada”.
Santa Catarina de Siena dita seus 'Diálogos' ao Beato Raimundo de Cápua,
Giovanni di Paolo (1399 - 1482). Detroit Institute of Arts
Às vezes interesses superiores recomendam prudência. Mas interiormente a gente deve ter esse estado de espírito e sofrer essa prudência com suma tristeza.
O mais das vezes aquele que tem condescendências para quem não é verdadeiro católico, não é condescendente com os verdadeiros católicos.
É o quê? Egoísmo, egoísmo, egoísmo, e com a aparência de bondade...
Numa carta ao cardeal Pierre d’Estaing, Santa Catarina escreve:
“Eu desejo ver em vós um homem de coragem. A alma que teme a opinião dos homens não atingirá jamais a perfeição”.Essa é outra frase a ser gravada em ouro: a pessoa que teme a opinião dos homens jamais alcançará a santidade.
Porque se a pessoa está subjugada pela opinião dos outros e tem pavor de ser criticada, então não tem verdadeiro amor de Deus.
Muitas vezes as pessoas fracassam no apostolado e se perguntam porque foi. Se a gente dissesse: “Se você tem medo do juízo dos outros Deus não abençoará sua obra, porque quem tem medo do juízo dos outros, se coloca numa condição negativa.
É uma Santa que censura num Papa porque permite que se corrompam os membros de Cristo porque ninguém os castiga.“Tudo abala uma tal alma; não levará avante empreendimento algum”.
Santa Catarina de Siena diante do Papa de Avignon
“O receio dos outros paralisa os santos anseios e pôe obstáculos à sua realização, escreve Santa Catarina.
“Cega o homem a ponto de não mais conhecer a verdade. Pois esse temor procede do amor próprio.
“Assim que a criatura humana começa a amar a si mesma, dela se apodera o temor da opinião dos outros.
“Por que receia o homem? Porque colocou seu amor e sua esperança nas coisas frágeis.
“Ó culpável amor próprio! Tratando-se de um prelado, jamais (repreende) ou castiga seus subordinados, receoso de desgostá-los.
“Não leva em conta nem o direito, nem a justiça, julgando segundo o capricho das criaturas, de maneira que aquelas que dirige mais se enraízam no erro”.
“Seria bom que o nosso doce Cristo na terra, o Papa, se libertasse de duas coisas que corrompem a Esposa de Cristo: a primeira é a afeição demasiada à sua família; a segunda é brandura excessiva baseada em desmedida indulgência”.
E o exorta a que “com mão firme restaure a ordem, pois uma excessiva complacência constitui, por vezes, a maior das crueldades.
“Ter fé no porvir glorioso que lhe foi predito à Igreja”.
Santa Catarina de Siena assediada pelos demônios |
Como praticar esse conselho?
A primeira coisa é reconhecer que a gente é assim. Eu vou olhar francamente: eu sou medroso, poltrão; eu deveria ser corajoso, não sou.
Porque não tenho coragem de confessar a Deus e de proclamar Nossa Senhora diante dos homens; porque tenho mais medo de uma risota.
Aqui estou eu; eu sei que eu sou assim. E reconhecendo que sou assim, desejo mudar.
Este é o ponto de partida de toda emenda. Vejamos os nossos defeitos e reconheçamos o que eles são. O resto virá depois.
Se nós nos olharmos de frente, rezaremos bem e obteremos cura.
Não adianta só rezar. Três Ave-Marias, esplêndido! Indispensável!
Mas é preciso eu olhar meu defeito de frente e dizer de mim para mim, fustigando-me no meu interior: Tal sou eu; eu faço essa coisa ruim.
Confio na misericórdia de Nossa Senhora, sei que Ela vai tomar em consideração minha debilidade.
Mas isso que eu posso fazer: ter em vista diante de mim mesmo o meu pecado e de me estigmatizar.
É ao que nos exorta Santa Catarina de Siena.
Grande apelo à coragem dos servidores da Igreja de Cristo .
ResponderExcluirCoragem =frontalidade .
De facto ,confrontamo-nos com uma ausência deste apelo substituído por "meias palavras".
Acontece.