quinta-feira, 21 de março de 2013

“O tempo passou e me formei em solidão”

Autor: José Antônio Oliveira de Resende. Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João Del-Rei/MG.


Sou do tempo em que ainda se faziam visitas.

Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido.

Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres à visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.


E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre.

Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre.

Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes.

Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha - geralmente uma das filhas – e dizia:

– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam.

As gargalhadas também.

Pra que televisão?

Pra que rua?

Pra que droga?

A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança...

Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam....

Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos.

E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.

Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta.

Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail...

Cada um na sua e ninguém na de ninguém.

Não se recebe mais em casa.

Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas.

Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!






7 comentários:

  1. Maravilha da tempo!!! E de artigo.
    Obrigado.

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  2. Caros Amigos!
    Infelizmente, é assim mesmo...sem tirar nem por! Também Sinto essa situação nos dias de hoje...pensei Que fosse só eu...Sou "PHD" nesta especialidade! Já servi à muitas pessoas e simplesmente essas mesmas pessoas "sumiram", isto é, "se fazem" de sumidas...e assim é a vida...só "servimos" por "interesse"...e agora, atualmente, não conto com ninguém e se precisar de alguém, COM CERTEZA "MORRO NA PRAIA!!!"
    Êta bicho ruim de se lidar esse tal de "ser humano"!!!
    Abraços!
    Wilma de Fátima.
    "Quem me dera pudesse compreender. Os segredos e mistérios dessa vida.
    Esse arranjo de chegadas e partidas.
    Essa trama de pessoas que se encontram. Se entrelaçam.
    E misturadas ganham outra direção..."

    Parabéns ao Autor do Texto! Singelo e Verdadeiro!!!

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  3. "Ha em cada olhar de um saudosista amoroso.... uma lagrima triste ....
    Tambem sinto assim..."
    Grata pela linda mensagem,

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  4. Esse belíssimo texto me remeteu para minha feliz infância no início dos anos 60 em Juiz de Fora MG. Me emocionou profundamente pois vivi tudo isso. Família, que bem precioso e tão ultrajada nos dias atuais com novas propostas (casal homosexual, "trisal" - uniao a três etc.); amigos, um tesouro de afetos do coração ...

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  5. Assim como todos voltei no tempo.
    Tempo,Tempo,Tempo.

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  6. Orlando Jr.
    Texto realista. Cidades do interior, chegamos a viver essa verdade, principalmente os sexagenários, hoje caminhamos para plataformas para plataformas interplanetárias, graças é claro, por tudo que o mundo já passou na sua evolução, no seu caminhar. Parabéns por tão boa descrição de uma época que ainda conseguimos lembrar.

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