terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Riqueza incalculável na pobreza da gruta de Belém

O Natal é sobre tudo para os que mais sofrem
O Natal é sobre tudo para os que mais sofrem
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Natal dos que sofrem perseguições


Plinio Corrêa de Oliveira imaginou um prisioneiro, que numa sinistra prisão da Rússia, ouve tilintar um sininho anunciando a noite de Natal.

Na sua masmorra, cercado de ódio, perseguição, necessidade, tristeza e aflição ele se ajoelha, e reza: “Senhor, é vosso santo Natal.”

E uma graça penetra através dos muros do cárcere.

É a esperança e a alegria que emanam sem cessar da gruta de Belém, enchem a sua alma em meio à solidão e à dor!

Quantas almas há na Rússia, na China, em terras do Islã, em povos pagãos incontáveis aguardando uma consolação assim?

Talvez sejam mais numerosas e sofram mais as almas que, na miséria moral do Ocidente, flageladas pela vulgaridade, pelo abandono da família, pela feiura, pelo igualitarismo, pelo ateísmo, pela sensualidade revolucionárias se alastram sob as luzes mentirosas da modernidade.

Como a família de camponeses de Waldmuller, não teremos algo a dar?

Por exemplo, uma oração à Santa Mãe de Deus por eles vale infinitamente mais do que uma moeda, uma sopa ou um presentinho, nesta noite de Natal.

Eles não saberão, mas podem sentir um brusco alívio, um desafogo, pois irmãos católicos que não conhecem rezaram por eles. Mas no dia do Juízo conhecerão.

“Deus se fez carne e habitou entre nós”


Natal
Natal
Há outras pobrezas que o Natal supre com superabundantes riquezas morais.

Plinio Corrêa de Oliveira contou que sua mãe, Dona Lucília, quando muito idosa, não tendo mais condições de ir à Missa na noite de Natal, permanecia só em casa.

Ele ia com os amigos, e voltava para cear a sós com ela.

E encontrava a sala de jantar arranjada com um cuidado esmerado: toalhas, pratos, doces, bolos, tudo feito em casa, pela ideia antiga de que as coisas caseiras são melhores do que as compradas em confeitarias, pois traz o carinho que o produto comercial não tem.

Após a ceia, Mãe e filho iam sempre ao quarto dela, onde havia um pequeno presepe de porcelana no qual ela colocava uma imagenzinha do Menino Jesus enfeitada com flores, acendia uma vela cujo castiçal ela ornava com papel de seda.

Os dois iam adorar o Menino Jesus: ela já idosa não podia se ajoelhar, mas Dr. Plinio se ajoelhava durante as orações.

Por fim se despediam com a alma repleta das graças natalinas. Porque a alegria fundamental do Natal é dupla: a alegria do estado de graça do fiel que sente Cristo inabitando sua alma.

E, em segundo lugar, a alegria de que “Deus se fez carne e habitou entre nós”.

Alegria que vem desde a primeira noite de Natal como um rio que Nosso Senhor abriu e vai percorrer a planície triste deste mundo até o final dos tempos.

Numa hora de alegria de alma é proporcionado darmos ao ‘irmão corpo’ — conforme expressão de São Francisco de Assis — um certo contentamento.

Ceia de Natal
Ceia de Natal
A ceia de Natal é um eco de nossa alegria moral, religiosa, interior, espiritual.

Mas para D. Plinio constitui uma verdadeira abominação fazermos da Ceia do Natal o centro da festa.

A Ceia de Natal montada como um regabofe que empanturra é um Natal de cabeça para baixo.

A Ceia de Natal deve ser delicada, que dê ao corpo um modesto e proporcionado prazer que sublime discretamente a alegria espiritual e não que a abafe.

Discrição e sobriedade que nos faz participar da primeira Ceia de Natal que a Sagrada Família fez na gruta de Belém.

Porque o Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo é um festim espiritual, delicado, em que as subtilezas da graça enchem de gáudio as almas enlevadas, acompanhadas por uma boa ceia, alegre, digna, que sublima os aspectos espirituais do Natal.

Histórica trégua de Natal


Na véspera do Natal de 1914, no front dos embates da Primeira Guerra Mundial, ao longo das trincheiras cheias de lama e destruição, soldados alemães, britânicos e franceses fizeram uma pausa no combate para entoar canções natalinas.

Soldados britânicos e alemães trocam presentes entre as trincheiras, no Natal de 1914. The Illustrated London News, 9-1-1915.
Soldados britânicos e alemães trocam presentes entre as trincheiras,
no Natal de 1914. The Illustrated London News, 9-1-1915.
Imaginemos que em paupérrimas comemorações, uns ouviram os outros, e de modo inexplicável saíram das trincheiras e intercambiaram pobres presentes de soldados: uma garrafa, um chocolate, alguns cigarros.

Trocaram cumprimentos e se abraçaram em diversos pontos da frente de combate.

Em breve estariam cumprindo seu dever bélico, mas a doçura do nascimento do Menino Deus passou por cima dos embates da guerra.

Foi o Weihnachtsfrieden em alemão ou Christmas truce em inglês, a Trêve de Noël em francês, uma trégua inteiramente informal que só a graça de Natal pode inspirar.

“Não há ser humano mais débil do que uma criança. Não há habitação mais pobre do que uma gruta.

“Não há berço mais rudimentar do que uma manjedoura.

“Entretanto, esta Criança, naquela gruta, naquela manjedoura, haveria de transformar o curso da História”, escreveu Dr. Plinio nestas páginas, numa edição do Catolicismo de dezembro de 1952.

Menino Jesus fonte de todas as riquezas morais
Menino Jesus fonte de todas as riquezas morais
E escolheu para si a mais difícil de todas as transformações!

Não visou acompanhar os homens pelo rumo que seguiam, por vezes com lados bons.

Mas os orientou para a via da austeridade, do sacrifício, da Cruz. Convidar à Fé um mundo apodrecido pelo sincretismo religioso; convidar para a justiça uma humanidade imersa em iniquidades; convidar ao desapego um mundo que adora o prazer, que recusa a pureza e encobre todas as depravações com sofismas de falsa virtude.

Em Belém, a Divina Criança começou a fazê-lo.

Nem a frieza e o ódio, nem a força do domínio romano, nem o torvelinho das paixões humanas pôde conter.

Assim será até o fim do mundo: enchendo-o com a alegria que comunicou com seu primeiro vagido na pobre gruta de Belém.



(Autor: Luis Dufaur. In Catolicismo nº 852)


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