segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Partido Socialista morreu, diz analista das esquerdas francesas

O PS tem tudo: dinheiro e poder. Só faltam militantes, ideias e eleitorado.
O PS tem tudo: dinheiro e poder. Só faltam militantes, ideias e eleitorado.



Laurent Bouvet, pensador socialista e diretor do Observatoire de la Vie Politique (Ovipol) da Fondation Jean-Jaurès, pintou um deprimente quadro do Partido Socialista francês (PS), hoje no poder e praticamente a única opção viável para as esquerdas francesas.

Ele resumiu o seu balanço com uma frase lapidar: “O PS está moribundo, o partido de Épinay [Épinay-sur-Seine, localidade onde foi fundado] está morto”, registrou o jornal parisiense “Le Figaro”.

O tema interessa na América Latina pois o PS francês foi e continua sendo um grande patrocinador das esquerdas tupiniquins, intensamente unido ao lulopetismo e ao Foro de São Paulo.

Bouvet apontou como causas do desastre o desinteresse e a desconfiança do público em relação aos partidos políticos e aos jogos de lideranças partidárias, bem como a fraqueza dos militantes socialistas em se mobilizarem.



A própria estruturação do partido, que é o farol das esquerdas francesas, está em profunda crise. Ele deveria se renovar, mas todos brigam internamente pelo controle do aparelho partidário que se desfaz.

Pouco restou das promessas de socializar a economia, feitas pelo presidente Hollande, e quase nada se empreendeu no sentido socialista, deixando os militantes decepcionados.

Laurent Bouvet: o PS está morto!
Laurent Bouvet: o PS está morto!
Reformas como a do “casamento” homossexual, da educação sexual escolar, etc., levantaram uma onda de oposição que ameaça sepultar o partido para sempre.

Esses fenômenos provocaram resultados eleitorais catastróficos para o PS e o conjunto das esquerdas.

Embora faça concessões, Hollande, o presidente mais impopular da V Republica, não consegue reverter o desastroso panorama econômico, que multiplica a antipatia popular.

O PS fundado em Épinay visava trazer à política o espírito anárquico e emancipador de Maio de 68.

Ele chegou a conquistar a Presidência em 1981 com Mitterrand, mas logo abandonou a plataforma autogestionária que devia operar a ruptura com o regime de propriedade privada e livre iniciativa, eliminando o capitalismo, conforme prometia.

Ficou para o PS conduzir a “emancipação” da sociedade, leia-se a promoção dos “direitos” das minorias, como LGBT ou raciais.

O partido ficou lotado de representantes dessas minorias, concentradas nos centros urbanos. Porém, o povo abandonou-o e correu para a extrema-direita.

Hoje o projeto do PS gera dúvida e desordem entre os socialistas e o partido já avista uma catástrofe eleitoral nas próximas eleições presidenciais.

O berreiro dos 'elefantes' segue forte, mas as sedes se esvaziam
O berreiro dos 'elefantes' segue forte,
mas as sedes se esvaziam
O pouco que subsiste após tantas derrotas será logo varrido por essas derrotas eleitorais, diz Bouvet, provocando pesadas deserções.

O eleitorado “progressista” não existe mais como pedestal político para relançar uma forca capaz de enfrentar a direita ou mesmo a extrema-direita, continua o especialista.

Trata-se de uma dissolução sociológica da base do partido. Ele devia se apoiar na juventude, na igualdade e na diversidade. Mas hoje está tomado pelas brigas dos velhos “elefantes”.

Fica pouco do partido original. O desejo de romper com o capitalismo através da socialização dos meios de produção, da propriedade coletiva e da intervenção maciça do Estado na economia, pertence à sua história, não ao presente.

O anti-racismo se esgotou. Quem se lembra do emblemático SOS Racismo?

O anti-racismo se revelou ineficaz e ficou como pretexto para favorecer a carreira burocrática de militantes das causas anti-racistas.

Porém, o PS ainda conserva “toda uma casta de guardiões do templo para quem o menor questionamento equivale a um ataque contra o dogma”. E a imprensa ri dessa cegueira.

Os líderes partidários, os responsáveis locais, as associações cidadãs que engrossam a periferia partidária não são mais capazes de entender a sociedade e de conversar com ela.

O anti-racismo virou um dogma totalmente ineficaz contra o racismo e sucumbe diante dos espectros anti-semitas e antimuçulmanos, que crescem renovados.

O PS precisa se reinventar mas ninguém sabe como e o partido entrou em estado terminal.
O PS precisa se reinventar
mas ninguém sabe como e o partido entrou em estado terminal.
O governo ataca este e aquele intelectual, esquecendo-se de que a intelectualidade é um componente essencial da vida francesa, sobretudo nas esquerdas.

A independência de espírito e a liberdade de crítica estão encravadas na alma revolucionária desde o Iluminismo.

Mas quando algum intelectual se volta contra o partido, este o esmaga. E se suicida...

Os símbolos, a ideologia, as ideias, os militantes, os representantes eleitos, as redes sociais, isso formava o corpo do PS. Já não há mais nenhuma doutrina identificável no socialismo e as sedes do partido se esvaziam.

O partido nascido em Épinay está morto. E essas foram as suas causas. A atual estrutura do PS ainda boia, mas entrou em estado terminal sem sobressaltos. Sem um choque elétrico profundo não se vê como possa se reinventar, concluiu o pensador socialista.


Um comentário:

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